Girlaine, ao lado do marido, com a filha nos braços (Foto: Arquivo pessoal)

Após me tornar mãe solo aos 21 anos e ter enfrentado diversos desafios na criação do meu primeiro filho, hoje com 23 anos e terminando a faculdade de direito, eu não pensava mais em ter filhos. Por isso, mergulhei de cabeça nos estudos, me graduei, fiz concurso público, fiz mestrado e aproveitei todas as oportunidades profissionais que a vida me ofereceu. Definitivamente, ser mãe parecia não estar mais nos meus planos. Me assustava demais a ideia da criação de mais uma criança, eu receava financeiramente mais um filho.
Só que o tempo foi passando e eu acabei conhecendo uma pessoa por quem me apaixonei. O relacionamento evoluiu e decidimos morar juntos. E enquanto eu relutava sobre o desejo de ser mãe novamente, o meu marido – que havia sido adotado aos 2 dias de vida – sonhava em ser pai. Esse era seu maior sonho. Comecei a observar a maneira como ele falava sobre a possibilidade de ter filhos e, aos poucos, fui amolecendo o coração e deixando aflorar um desejo que, na verdade, sempre tive, mas por medo eu fazia questão de esconder: eu também queria ser mãe de novo.

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Girlaine e a filha Esther, 1 ano e 4 meses (Foto: Arquivo pessoal)

E assim, depois de 3 anos juntos, resolvemos que tentaríamos um bebê. Procurei o meu médico, que era o mesmo de quando eu era jovem, e falei sobre o desejo de retirar o DIU, um método contraceptivo que me acompanhava há mais de 20 anos! Como meu histórico não era nada favorável a uma gravidez – eu estava com 42 anos, tinha ovários policísticos, menstruação irregular e útero retrovertido – resolvi tentar mais por meu marido e mostrar que havia boa vontade da minha parte, já que não acreditava muito que poderia gestar um bebê. O inesperado positivo. Só que para minha surpresa, o positivo veio após quatro meses de retirada do DIU. Fiquei realmente muito impressionada, pois acreditava ser quase impossível engravidar naquelas condições. Passada a surpresa, minha gravidez correu normalmente, mas o fato de eu estar acima do peso, ser sedentária (isso era uma característica minha, que trabalhava demais e não conseguia priorizar o tempo para os exercícios) e ter uma inflamação no cóccix, resultavam em muita dor nas costas. Tirando isso, no entanto, o bebê estava saudável e a gravidez progredia.

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O filho mais velho de Girlaine, com a irmã nos braços (Foto: Arquivo pessoal)

Uma suspeita preocupante
Pelo meu histórico, o meu médico orientou que mensalmente eu fizesse o ultrassom. E assim aconteceu. Porém, quando estava no último trimestre de gestação, precisei fazer os dois últimos ultrassons em outra clínica, e lá os médicos começaram a me perguntar se eu havia notado algum sangramento. Respondi que não. E eles me disseram que a minha placenta estava baixa. Depois, conversaram comigo sobre a possibilidade de ter que passar por uma histerectomia (retirada) de útero na hora do parto, caso houvesse muito sangramento. Fiquei um pouco preocupada, mas acreditava muito na equipe médica que me acompanharia.
A essa altura da gravidez, a dor no cóccix estava insuportável e já não era novidade eu chorar de dor algumas vezes ao dia. Para ajudar, tive uma crise de diverticulite (inflamação do intestino) e, com 37 semanas de gravidez, a minha pressão começou a subir. Dado todo o quadro clínico, o meu médico achou melhor marcar a cesárea. E assim foi.

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Foto: Arquivo pessoal

Sexto sentido?
Na data marcada para o parto, eu e meu marido chegamos ao hospital e, ao contrário do que imaginávamos, eu não estava feliz. Foi, ali, dentro do hospital que tive o pressentimento que algo ruim aconteceria comigo. De maneira muito inesperada, fui tomada pela sensação que não sobreviveria ao parto. Mandei uma mensagem para minha irmã com todas as minhas senhas e dados importantes, informando inclusive o que eu gostaria que fosse feito com meus poucos bens caso eu não sobrevivesse ao parto.
Segui para a realização da cesárea, que parecia acontecer normalmente, até que o médico me pediu que não olhasse para a luminária que estava acima de mim, refletido o cenário da cirurgia. Obviamente, olhar para a luminária foi a primeira coisa que eu fiz. Daquele momento em diante, só lembro deles terem retirado a minha filha e, no mesmo minuto um dos médico gritando para que o ajudassem a deter o sangramento intenso. Era sangue para todo lado.

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Foto: Arquivo pessoal

A vida por um fio
Entrei em choque hipovolêmico, uma situação que acontece quando se perde grande quantidade de líquidos e sangue, e faz com que o coração não seja capaz de bombear o sangue para o corpo. Tive hemorragia total e precisei tomar 7 bolsas de sangue. Toda a equipe médica e de enfermeiros se voltaram ao meu caso. O médico responsável tentava de tudo para conter o sangramento, enquanto retirava meus ovários, parte da bexiga e o útero. O que aconteceu foi que a placenta havia se colado a esses órgãos, que ficaram danificados. Por um fio, não perdi a vida. Alguns batimentos cardíacos a menos e eu não resistiria.
Durante a cirurgia, os médicos não tiveram tempo de fazer um novo acesso para a transfusão de sangue. Assim, aproveitaram o acesso já feito no braço para receber os medicamentos da cesárea e eu tomei todas as bolsas de sangue por lá. O resultado foi que fiquei com o braço “podre” após a transfusão. Tive cianose. E os médicos me contaram que para salvar minha vida eu poderia ter que perder o braço. Fiquei 16 dias no Centro de Terapia Intensiva. Só pude ver minha filha após uma semana do parto. Como não tínhamos com quem deixa-la e meu marido estava indo e voltando diariamente ao hospital, as enfermeiras foram quem cuidaram dela nos primeiros dias de vida. E a emoção foi enorme ao vê-la pela primeira vez, ainda mais sabendo que eu quase não pude viver aquele momento.

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Foto: Arquivo pessoal

Os médicos estavam novamente diante de um impasse: se me desse medicamentos anticoagulantes na tentativa do braço começar a ter sangue circulando novamente, haveria a possibilidade de ter uma nova hemorragia interna. Eu estava com quase 400 pontos internos, resultado da sutura de todos os órgãos que haviam sido retirados. Histerectomia total e cistectomia parcial. Novamente, houve um médico ousado que resolveu arriscar e monitorar o comportamento da coagulação. Foi uma decisão acertada! Aliado à fisioterapia que eu fazia no hospital todos os dias, o medicamento fez com que o sangue começasse a circular novamente no braço. Um segundo milagre aconteceu!

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Puerpério conturbado e a importância da rede de apoio
Com sonda e quase sem poder andar ou carregar a minha bebê, voltei para casa. Eu me sentia outra pessoa, parecia que nunca mais nada seria como antes. Meu primeiro mês em casa foi muito trabalhoso. Meu marido cuidava da nossa filha integralmente: dava banho, mamadeira – tentei amamentar, mas diante da situação, não consegui – trocava as fraldas e fazia tudo o que precisava. Enquanto isso eu me re-estabelecia. Foi muito complicado me olhar no espelho novamente, com aquela sonda que eu precisava carregar dia e noite. Nesse período a ajuda das minhas amigas foi fundamental! Uma delas criou um grupo de apoio e reuniu amigas, que doaram dinheiro para a contratação de uma babá. Elas fizeram uma vaquinha durante 3 meses! E ainda me mandavam comida pronta, cesta de frutas, roupinhas de bebê, leite. Era ajuda de todos os lados! Foi muito lindo de ver!
O braço, ah, o braço! Levou uns 8 meses para que ele voltasse ao normal. E eu realmente posso dizer que nasci de novo naquele parto. Minha vida foi completamente transformada. E a nossa filha é a luz da nossa vida. É o nosso raio de sol. Não consigo nem expressar o quanto ela significa para nossa família. E quando me perguntam se todo esse sofrimento valeu a pena, digo que sim. Eu passaria por tudo novamente para viver o que vivemos hoje!
* Depoimento de Girlaine Figueiró Oliveira, pedagoga, 44 anos, de Belo Horizonte (MG)