Mitos e verdades da quarentena

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É comum a falta de libido após o parto.
Verdade. Esse é um período em que a atenção se concentra quase que totalmente no bebê. E tem ainda as adaptações necessárias da mãe e de toda a família com esse novo cenário, o que gera desgaste. Alie a isso o cansaço intenso que a mãe acumula ao não dormir direito, as vezes não se alimentar da forma correta, por exemplo. E tem ainda a reorganização dos hormônios, que continua acontecendo por algum tempo após a gestação; o medo de ter relação sexual e sentir dor, de não conseguir mais ter e dar prazer como antes. Tudo isso acaba comprometendo a qualidade de vida da gestante. E a libido, claro, acaba em baixa.

É preciso fazer repouso total na quarentena.
Mito. Nesse momento são desaconselhadas apenas a prática de relações sexuais ou atividades físicas intensas, além de subir escadas e carregar peso, que podem provocar sérios problemas e colocar em risco todo o processo de recuperação da paciente. Dirigir também não é aconselhável nesse período, pois pode atrapalhar a cicatrização do períneo.

Aquele monte de recomendações do resguardo é frescura.
Mito. O período de seis semanas logo após o parto, também chamado de puerpério e popularmente como resguardo ou quarentena, é fundamental para a recuperação da paciente e também para o retorno de suas funções fisiológicas normais.

No puerpério o risco de trombose é maior.
Verdade. Isso acontece porque a mãe passa mais tempo sentada, amamentando ou em repouso. E a imobilidade é um fator de risco para eventos tromboembólicos. Daí a recomendação de não fazer repouso total. É preciso se levantar várias vezes ao dia e tentar levar uma vida normal, mas sem excessos.

A curvatura na lombar ainda é sentida na quarentena.
Verdade. Clinicamente conhecida como lordose, essa curva na lombar pode provocar incômodos, dificultando a atividade física e sexual, assim como as contraturas e câimbras, muito comuns nesse período.

As infecções são mais frequentes no puerpério
Verdade. Devido à cicatrização uterina do período, o risco de infecções aumenta.

Mesmo com um mês após o parto é preciso esperar o médico liberar a volta à atividade física.
Verdade. É preciso esperar a liberação do médico porque tanto a musculatura abdominal quanto diversos tecidos intra-abdominais sofreram a distensão pelo aumento do tamanho do útero, o que dificulta a prática de exercícios físicos.

Nunca precisei usar lubrificantes. Não vai ser agora que vou precisar.
Mito. Até mesmo quem tem boa lubrificação pode precisar de um lubrificante, afinal, a vagina e diversos outros órgãos passam por processo de atrofia e, consequentemente, estão com maior fragilidade e ressecamento, o que torna a prática de relações sexuais mais incômoda, podendo, inclusive, levar a sangramentos por lacerações vaginais. Isso justifica também a necessidade de aguardar a recuperação natural do órgão.

Se na semana após o parto acontecer algum tipo de sangramento vaginal devo procurar o médico imediatamente.
Mito. É comum que nos primeiros dias ocorra um sangramento mais avermelhado, passando para marrom e amarelo, especialmente se você teve parto normal. A explicação é que a retirada da placenta faz com que os tecidos restantes sejam mandados embora. Não se assuste porque isso faz parte da regeneração do útero.

É preciso evitar comidas mais pesadas ou gordurosas.
Verdade. Tudo o que você come é transferido para o leite do bebê, que ainda não tem o sistema digestivo preparado para receber esse tipo de alimentação.

Preciso ficar, pelo menos, uma semana sem lavar o cabelo.
Mito. As pessoas mais antigas acreditavam que ao lavar o cabelo estariam interrompendo o sangramento comum do pós-parto e que isso poderia causar até loucura. Mas não passa de mito. Se você sentir necessidade, pode lavar a cabeça, com cuidado para não fazer esforço demais.

Por todos esses motivos o resguardo tem que ser encarado como etapa obrigatória do processo de gestação e não deve ser negligenciado. Os casais bem orientados poderão se preparar adequadamente para mais essa dificuldade a superar e, talvez, cientes das limitações na qualidade de vida desse período, esforcem-se mais para manter a gravidez e o relacionamento com o companheiro mais saudável e equilibrado. Eu só tenho a desejar um bom momento à vocês!

Esse artigo foi escrito pelo ginecologista e obstetra Dr. Antonio Paulo Stockler, do Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF), do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), e professor auxiliar da disciplina de Saúde da Mulher da Faculdade de Medicina da Universidade Estácio de Sá. O médico é membro da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (Sgorj), e autor de livros na área da maternidade.

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