“Emendar” uma gravidez na outra é mais arriscado do que você imagina

Quem é mãe sabe o quanto a nossa rotina fica atribulada com a chegada do bebê. Parece que simplesmente tudo sai do lugar. Na nossa mente e corpo parece ter passado um trator, tirando tudo do lugar e nos trazendo muitas dúvidas e medos. E se internamente há uma confusão de sentimentos, no ambiente externo a coisa parece não ser muito diferente. A não ser que você conte com ajuda de babá, ajudante do lar, mãe, sogra ou marido, a vida vai ficando mais complicada, afinal, o almoço não se faz sozinho, o banheiro não é autolimpante, a louça não vai para o armário limpinha por conta própria… E em meio a tudo isso está a mãe, que vê os primeiros dias após o parto passarem como se fossem uma repetição do dia anterior: amamenta muitas vezes, troca fraldas quase de hora em hora, acorda durante a madrugada, e vê suas energias serem sugadas, o corpo desforme, o sono que parece não ter fim.
Divisão de funções é a palavra-chave para o puerpério
Ah, mas e aquela história linda que te contaram sobre ter um filho. Sim, ter um filho é algo incrível.  Mas o lado crítico também marca presença. Tudo vai depender de qual lado você vai valorizar. Claro que cada filho é um filho, e por menos “trabalho” (não gosto muito deste termo) que o bebê dê, é fato que ele precisa de cuidados o tempo todo. E, infelizmente, esses cuidados parecem recair apenas sobre a mãe. Seja porque ela está tão agarrada à cria, que faz questão de fazer tudo por aquele bebê, ou porque não conta com a ajuda de outras pessoas. E tem ainda aquelas que simplesmente não podem contar com o pai da criança.

Aliás, abrindo um parêntese, está aí algo que deve ser muito bem combinado antes da chegada do bebê, porque na verdade a única (ÚNICA MESMO) coisa que o pai não poderá fazer é amamentar. Pode ser que ele não troque a fralda como você quer, que o banho não seja como você imaginou. Mas é preciso que o pai entenda e seja inserido neste contexto. Aqui em casa, felizmente, pude ouviu do marido que ele gostaria de fazer tudo o que eu faria. E que se fosse preciso, me passaria o bebê apenas para dar mamá, assim sobraria um tempinho para descanso. Também por isso, ele tirou férias no período em que a Helô nasceu.

Pai não é ajudante. Pai é pai, assim como mãe é mãe. E cabe aos dois as responsabilidades com a pessoa que acabaram de colocar no mundo. Ao reforçarmos a ideia de que o pai está “ajudando”, deixamos claro que o cuidar é papel unicamente materno. Isso é um erro. Fecha parêntese.

Imagem: © Justin Paget/Corbis

O esgotamento físico e mental do puerpério é a causa de muitos esquecimentos importantes
Em meio a tudo isso a gente acaba, muitas vezes, esquecendo até mesmo de escovar os dentes e pentear o cabelo, imaginem então o bendito do contraceptivo oral, que está lá em cima do armário, da cômoda, do criado mudo, tudo para ser visível, mas simplesmente se torna invisível aos nossos olhos. Quando vemos, já se passaram dias e nos damos conta que o melhor a fazer é jogar aquela cartela no lixo e começar outra.

E aí, um descuido aqui e outro acolá pode resultar justamente em outra gravidez, que, regra geral, é tudo o que a gente não quer neste momento. A ginecologista Ilza Maria Urbano Monteiro, da UNICAMP, ressalta que o pós-parto é um período estressante, pois o casal está se adaptando a uma nova vida e os horários de descanso são escassos. “A utilização de um método contraceptivo é mais uma atividade dentro desse contexto e, muitas vezes, acaba ficando para mais tarde ou sendo esquecida, impactando na eficácia do método e favorecendo uma gravidez não planejada em um período cheio de mudanças”.
Outro esquecimento importante é o retorno às consultas pós-parto. Segundo estudos, 10% a 40% das mulheres faltam na primeira consulta após o nascimento do bebê, o que também contribui para numa gravidez não planejada.

Mas só amamentar não é suficiente para impedir a gravidez?
Você já deve ter ouvido falar que a amamentação impede a gravidez, sendo um baita contraceptivo “natural”. Isso de fato acontece, mas apenas quando o bebê é alimentado em livre demanda com amamentação exclusiva, ou seja, mama várias vezes durante o dia e a noite. Isso acontece porque a estimulação do leite é feita com o aumento da prolactina, que acaba impedindo a ovulação. Mas, ainda assim, há chances de a mulher ovular, logo, não dá para confiar apenas na amamentação.
Já as mães que fazem uso de fórmulas para alimentar seus bebês já começam a ovular lá pelo 25º dia após o parto. E é saindo da quarentena que o corpo começa a se recuperar e aí pode sim acontecer uma nova gestação, caso não tenha sido feita uma contracepção correta.
E atenção: muitas mulheres pensam que estão protegidas por não estarem menstruando. No entanto, várias gestações acontecem sem que haja a menstruação.

Os riscos de engravidar novamente num período próximo ao último parto
Além do susto, já que muitas gravidezes desse tipo não são planejadas, alguns fatores devem ser levados em consideração. Veja só:
– Quando a gravidez acontece novamente antes de seis meses, há riscos de sangramento, ruptura da placenta, inflamação do endométrio, anemia e, em casos mais sérios, até a morte.
– Antes de 1 ano e meio, aumentam as chances do segundo bebê ter subnutrição, paralisia cerebral e até mesmo de um parto prematuro.
– Gestações com intervalos menores que 2 anos podem resultar num ganho de peso maior por parte da gestante, ultrapassando os 15 quilos extras. E isso pode causar a temida diabetes gestacional.
– Em mulheres mais velhas os quadros podem ser ainda piores, já que há naturalmente maior propensão ao diabetes e à hipertensão.

A escolha do contraceptivo
Os métodos contraceptivos que não exigem lembrança e oferecem alta eficácia são os de longa ação. “Nos primeiros meses, que a mulher está focada no bebê, é mais difícil incluir uma atividade com hora marcada nessa rotina. Tornam-se interessantes métodos práticos, como o implante subcutâneo, o DIU de cobre ou o SIU (DIU com hormônio), que requerem troca apenas depois de alguns anos e são os métodos que apresentam a maior eficácia. Como nenhum deles contêm estrogênio, podem ser utilizados por quem está amamentando”, explica a ginecologista Ilza Monteiro.
Outra preocupação recorrente sobre a contracepção no pós-parto é a interferência na amamentação. Por isso, o campus da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto realizou uma pesquisa que comprovou que o implante subcutâneo no pós-parto não interfere na quantidade de leite produzida pela mãe. Além de não interferir na saúde do bebê, o anticoncepcional implantado também traz menos riscos de uma gestação seguida da outra.
E se você está grávida ou teve bebê recentemente e tem interesse em usar um contraceptivo de longa duração, saiba que o governo anunciou recentemente que os hospitais e maternidades públicas vão oferecer o DIU para mulheres no período pós-parto ou que tenham sofrido aborto. Portanto, esse é um direito seu!

Conheça um pouco mais sobre os contraceptivos de longa ação:

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