Sempre apanhei e não tenho traumas por isso

Começo esse texto refletindo sobre a postura de um colega que ao descobrir que eu defendia uma forma de educação sem palmadas e sem castigos contou que as poucas vezes que bateu no filho funcionou. Ou seja: o filho havia cessado o comportamento que o pai considerava inadequado. Então, para aquele pai, não havia o que eu dissesse que o faria mudar de opinião: Palmada funciona sim!

E para todas as pessoas que defendem o uso da palmada como método educativo,  sustentando pelo argumento da famosa frase”apanhei e não tenho nenhum trauma por isso”, o uso da palmada é educativo.

Mas será que o filho do meu amigo aprendeu mesmo? Ou será que ele aprendeu que na frente do pai dele não era seguro se expressar como bem desejasse? Nesse caso, as palmadas funcionam pra quem?
Funcionam para os pais, que sem terem outro recurso decidem fazer uso de sua força para punir o comportamento do filho.
Funciona para mostrar autoridade e para dizer “quem manda aqui sou eu”
Funciona para ensinar aos filhos que eles precisam ser mais espertos e mentir melhor ou fazer aquela determinada coisa apenas escondido.

Foto Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

Para educar, não funciona não.  Nenhum método coercitivo educa.
Eu quero que meus filhos não batam no amigo porque o amigo pode sentir dor e sentir dor é ruim. E não porque eles têm medo de ficar de castigo.
Eu quero que meus filhos não roubem nada de ninguém porque todos dão um duro danado para conseguir as coisas e prejudicar outra pessoa não é justo. Não quero que eles não roubem por medo de serem presos.
Eu quero que meus filhos aprendam a pensar sobre a consequência de seus atos e isso só o diálogo franco e frequente é capaz de ensinar.

Os ônus da situação

Agora, quem apanhou, mas diz não ter nenhum trauma por isso? Pois é… Pode ser que essas pessoas nem saibam que toda violência, por menor que seja, deixa marcas invisíveis.
Vários estudos apontam que palmadas e castigos dificultam o desenvolvimento das habilidades sociais e da inteligência emocional. Pois, não permitem que criança reflita sobre suas ações. Além de gerar desconforto físico e emocional.
Se eu mando e meu filho obedece, o que será dele quando eu não estiver mais aqui para que ele me obedeça? Será que ele saberá fazer escolhas por si mesmo? Ou será que ele vai aproveitar para fazer tudo que sempre teve vontade e eu não deixava? Não devemos criar filhos obedientes, mas sim filhos cooperativos. Que reflitam e desejem cooperar para uma melhor convivência em família e para o desenvolvimento de uma sociedade mais pacifica e amistosa.
Crianças e adolescentes ainda estão aprendendo a viver nesse mundo e é nosso dever ajuda-los a lidar com seus sentimentos, desejos e vontades.
Punir não muda o desejo deles de fazer. Explicar o motivo que faz tal coisa não ser correta aumenta o desejo de cooperação. Independentemente da idade do seu filho se ele está apresentando um comportamento em desacordo com o que você deseja, converse.
Crie um plano ação…
Investigue quando esse comportamento começou.
Perceba se algo mudou na rotina da criança.
Pense se existe algo que você possa fazer para facilitar que ele aja de uma forma diferente.
Muitas vezes estamos tão focados em dizer o que está errado que não falamos o que esperamos que a criança de fato faça!
Ás vezes nem a gente mesmo sabe o que desejamos dos nossos filhos e esperamos que eles descubram por si mesmo como devem se comportar!
Lembre-se sempre: nós somos o adulto da relação e temos acesso a livros, Google, YouTube, Podcasts e inúmeros outros recursos para buscar meios mais eficazes de educar nossos filhos!

Se este assunto te interessa, vale ler este resumo de alguns trabalhos científicos importantes sobre o uso da palmada. E deixe também seu comentário aqui embaixo! Queremos saber o que você pensa a respeito do tema.

 

Letícia Gomes Gonçalves é psicóloga, educadora perinatal e consultora em criação com apego. Tem como missão de vida empoderar mulheres e mães, ajudando-as a se sentirem mais seguras e realizadas. Escreve para o Blog Conversa Entre Marias e nesta coluna a cada 15 dias. 

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