Segundo filho: não é apenas o irmão mais velho que precisa se adaptar

segundo filhoQuando se fala em segundo filho é muito comum pensarmos em como o irmão, que até então ocupava o posto de filho único, irá reagir. Será que ele terá ciúmes? Vai amar o novo membro da família? No entanto, vale lembrar que, muitas vezes, a mãe também está cheia de dúvidas e preocupada em como poderá multiplicar o amor que já sente pelo primeiro filho, de forma que ame os dois da mesma maneira. E tem ainda o sistema familiar, que passa por mudanças tanto do ponto de vista estrutural, quanto social, econômico, relacional e emocional. Justamente por isso, a fase é caracterizada como um período de ajustamento, podendo ser marcado por ansiedades, medos e redefinições do papel materno e paterno.

Como lidar com as mudanças

Questões sobre como será essa nova realidade são muito comuns, especialmente na cabeça da mãe, que sempre quer dar conta de tudo. Algumas ficam um pouco perdidas em meio ao estresse das novas condições, organizações familiares e múltiplas demandas, sendo percebido aumento de conflito entre mãe e filho. Também pode acontecer de a mãe passar a responder ao primogênito de modo cansado, com raiva, sem paciência. Por outro lado, algumas se tornam­ mais permissivas e buscam compensar a falta de atenção a todo custo. Daí a importância de contar com o pai, e de o casal se sentir envolvido nessa nova realidade, sem que ela se torne um peso.
E o irmão mais velho, como fica? 

Ele vai precisar contar com a habilidade dos pais em proverem a continuidade de cuidado e atenção, além do desenvolvimento emocional e da percepção desta nova situação. Há crianças que conseguem administrar bem o estresse, porém há outras que quando veem a barriga da mãe crescendo apresentam alterações no comportamento, revelando maior dificuldade de lidar com o sofrimento, o que pode se agravar quando o irmão nasce. Caberá aos pais ajudar a criança, que naturalmente tem dificuldades em compreender, expressar e controlar o que está sentindo e pensando. Ela poderá vivenciar amor e ódio pelo novo bebê e também pelos “novos pais” do momento, ficando mais irritada, agressiva, insegura, dependente, com alteração do sono e na alimentação, ter comportamentos de travessura e de regressão (fala infantilizada, busca pela mamadeira/chupeta, retrocessos em aprendizagem e em hábitos de limpeza e alimentação, xixi na cama…), maior exigência em relação à mãe e ciúmes.

Mas, como cada caso é um caso, também pode acontecer de a criança ter rápido aumento da independência do primogênito, como insistência em comer, ir ao banheiro e se vestir sozinho, bem como deixar de usar a mamadeira, chupeta ou fralda.

Dicas para os pais ajudarem o filho mais velho a lidar com a chegada do irmãozinho:
– Não evite as reações que a criança tem, mas ajude-a construir um diálogo aberto e seguro.

– Conte para ela que terá um bebê em casa, respondendo de forma honesta e com uma linguagem adequada a todos questionamentos que ela tiver.

– Permita que o primogênito participe desse novo momento: fale que ele pode conversar com o irmão se quiser e tocar, encostando na barriga da mamãe. Pergunte o que ele acha, pensa e sente.

– Quando for comprar os móveis e roupas do bebê ou avise seu filho ou leve-­o junto para ajudar a escolher. O mais importante é você fazer ele se sentir parte deste processo e desta nova família que está sendo reformulada. Isso evita que ele se sinta excluído e mostra que seus sentimentos e opiniões são muito importantes para os pais.

– Antes de ir à maternidade, explique o que é este local, para que ele existe, fale que o parto pode demorar um pouco e que talvez ela necessite dormir lá. Pergunte se seu filho quer esperar no hospital ou em casa com alguém em que confie e transmita segurança, dando voz  à sua escolha e apoiando­ a decisão.

–  No dia do parto, o filho mais velho pode ganhar dos pais um presentinho também (afinal o bebê vai ser coberto de presentes), e fique atenta se durante as visitas à maternidade a atenção dos familiares está apenas para o novo membro da família. Ao perceber que a criança está “de lado”, peça ajuda ao papai, avós ou alguém de confiança, que já tenha um bom relacionamento com a criança, de forma que ela se sinta valorizada e única também.

– Ainda na maternidade, aproxime os irmãos, não deixe o primogênito sentir que ele é incapaz ou perigoso para o irmãozinho, isso aumenta sentimentos de raiva e ciúmes.

– Na volta à casa, tente reservar também um tempo especial para o primogênito. Combine com ele atividades que gostem de fazer juntos, de forma que ele saiba que continua tendo um lugar especial com a mamãe e o papai.

– Garanta ao filho mais velho espaço físico na casa, não deixando que os objetos e produtos do bebê tomem conta do lar. Ele deve continuar tento um espaço próprio para brincar, estudar, guardar suas coisinhas e saber que este lugar é dele e para ele.
– Deixe ele pegar o irmão no colo e participar dos cuidados com o bebê. Isso aproximará os irmãos, ajudará na construção do vínculo dos dois e facilitará um sentimento de pertença do primogênito (não é excluído pela mamãe e papai, mas participa ativamente da vida do irmão e da nova estrutura familiar).

– Não culpe com seu filho mais velho pelas reações, busque um diálogo aberto e sem crítica para compreender suas necessidades. Mesmo que ele demonstre sentimentos hostis pelo bebê, isso faz parte do processo. É muito mais benéfico acolhê­-lo do que dizer que o que sente é feio e não pode existir.

E, claro, se sentir que não dará conta da situação sozinha, vale procurar a ajuda de um profissional. Não se culpe por isso!

Luciana Romano e Raquel Benazzi são psicólogas formadas pela Universidade Mackenzie, e integram o Núcleo Corujas. Elas têm experiência no trabalho com gestantes, psicoterapia de luto e trabalho de defesa da mulher.

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