Incompatibilidade sanguínea: se preocupar ou não?

incompatibilidade sanguineaÉ normal as gestantes começarem o pré-natal com um caderninho cheio de dúvidas. Todo obstetra já passou por essa situação e está preparado para informar e, se preciso, corrigir conceitos errados dados por conhecidos e vistos na internet. Com certeza uma dessas dúvidas é sobre os problemas que podem acontecer devido à incompatibilidade sanguínea.

Então, vamos esclarecer:
Cada pessoa tem diversas partículas chamadas de antígenos em suas células sanguíneas, e eles são determinados geneticamente, sendo que essas partículas podem ser divididas e classificadas em diversos grupos: ABO e Rh são os mais importantes. Por isso, quando alguém pergunta o tipo sanguíneo, o que se deseja conhecer é exatamente quais antígenos do grupo ABO e Rh a pessoa tem. Algumas combinações podem realmente ser perigosas e exigem cuidado especial durante o pré-natal e parto.

Tipagem sanguínea
A primeira coisa a ser feita é pesquisar na primeira consulta de pré-natal a tipagem sanguínea da gestante. Caso ela seja Rh negativa, isso significa que ela não possui o antígeno deste grupo (antígeno D) e será necessário também verificar se o marido também é Rh negativo. Apenas na possibilidade de o marido ser Rh positivo haverá necessidade de maior supervisão. Caso ele também seja Rh negativo, não há risco de doença por esse tipo de antígeno.
Já a incompatibilidade entre os genitores para o grupo dos antígenos ABO é a mais comum e felizmente não costumam causar complicações importantes, sem necessidade de tratamento específico.

Preocupação
A incompatibilidade ABO e Rh representam juntas 98% dos casos de doença do recém-nascido, mas a Rh é a que realmente preocupa, pois, embora mais rara, é responsável pelos casos mais graves. Para acontecer a doença é necessário que o feto seja Rh positivo e pequena quantidade de sangue fetal atinja a circulação materna, o que pode ocorrer em caso de sangramentos na gravidez, procedimentos invasivos na gravidez, como amniocentese, e também no momento do parto. Atingindo a circulação materna, o sistema imunológico da mãe irá produzir células de defesas contra essas partículas desconhecidas (anticorpos). Aí é que mora o perigo. Esses anticorpos poderão atravessar a placenta e atingir o feto, causando destruição de suas células sanguíneas que possuem o antígeno Rh. Esse ataque poderá levar ao desenvolvimento de anemia fetal, insuficiência cardíaca e até mesmo a morte do feto dentro do útero materno.

A segunda gestação
A boa notícia é que, uma vez que a gestante precisa entrar em contato com essa partícula do sangue do bebê para, somente então, produzir os anticorpos, esse ataque dificilmente acontece na gestação atual, mas sim em gestação futura de novo feto Rh positivo. Na prática, o primeiro contato com esse sangue diferente estimula a produção dos anticorpos, já na segunda gestação esses anticorpos chegam à circulação fetal e agridem o feto.

Medicamentos a seu favor
Mas se você deseja o segundo filho, há possibilidade de tentar impedir a formação desses anticorpos através da aplicação de uma medicação (imunoglobulina anti-Rh ou anti-D) logo após o parto ou após qualquer situação de risco de contato entre o sangue da mãe e o feto. A medicação é composta de anticorpos que irão impedir que as células fetais que possuem os antígenos Rh vindas do feto alcancem e estimulem o sistema imunológico materno, evitando a produção dos anticorpos que poderão causar prejuízos em caso de nova gravidez. Essa etapa é fundamental para evitar a produção dos anticorpos e deve ser repetida após todos os partos de pacientes Rh negativo visando a evitar a produção dos anticorpos.

Exames específicos
Para saber se a gestante já produziu os anticorpos e, portanto, se existe risco de acometimento fetal naquela gravidez, o obstetra solicita regularmente a dosagem de Coombs indireto, um exame capaz de detectar a presença desses anticorpos na circulação materna. Se o resultado for positivo haverá necessidade de monitorar rigorosamente o feto para tentar detectar qualquer alteração. Isso geralmente é feito através da ultrassonografia e dopplerfluxometria obstétrica.

Anemia fetal
Nos casos em que esses exames indiquem acometimento fetal, será necessário confirmar a anemia fetal através de exame invasivo chamado cordocentese e até mesmo realizar uma transfusão sanguínea fetal ou programar a antecipação do parto para tratar a anemia. Felizmente, com a disponibilidade da imunoglobulina, a produção de anticorpos vem se tornando cada vez mais rara, assim como casos graves de anemia fetal.

Para que nenhuma dessas complicações ocorra, é importante que toda gestante busque atendimento pré-natal tão logo descubra a gravidez e faça todos os exames solicitados. Exames e medidas simples como o Coombs indireto e a imunoglobulina podem fazer toda a diferença no sucesso da gestação e estão atualmente disponíveis em qualquer rede de atendimento de pré-natal. Assim, essa dúvida e preocupação do caderninho da gestante já podem ser riscadas da sua lista!

 

Esse post foi escrito pelo ginecologista e obstetra Dr. Antonio Paulo Stockler, do Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF), do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), e professor auxiliar da disciplina de Saúde da Mulher da Faculdade de Medicina da Universidade Estácio de Sá. O médico é membro da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (Sgorj), e autor de livros na área da maternidade.

 

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